Bolsonaro sai fortalecido da cúpula dos Brics



VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL


Crise boliviana sinaliza realinhamento de forças na disputa geoeconômica entre China e EUA; uma Bolívia conservadora fortalece a posição do Brasil no combate a Maduro e na eventual disputa com o governo Alberto Fernández


Guilherme Stolle Paixão e Casarões


Xi Jinping e Bolsonaro: líder chinês fez promessas importantes para o Brasil e a América Latina no que diz respeito a investimentos e acordos de cooperação tecnológica

A XI Cúpula dos BRICS representou um marco diplomático de relevo ao Brasil. É verdade que a diplomacia do presidente Jair Bolsonaro havia se afastado dos países emergentes em nome de um alinhamento automático com Washington e outros países de lideranças conservadoras, como Israel e Hungria.

Ainda assim, a Cúpula de Brasília seria a coroação de uma reaproximação com a China, movimento iniciado pela visita de Bolsonaro a Beijing, há algumas semanas. Ao contrário da histeria sinofóbica que marcou a campanha e o início do governo, induzida pelo grupo “olavista” que está à frente da política externa brasileira, o pragmatismo da equipe econômica e do agronegócio, setores cruciais para a sobrevivência política do presidente, passaram a pautar as relações exteriores do país nos últimos meses.

De fato, o balanço final da Cúpula dos BRICS atesta esse “choque de realidade” imposto à diplomacia bolsonarista. Xi Jinping, que se porta como líder de uma superpotência econômica, fez promessas importantes para o Brasil e a América Latina em termos de investimentos e cooperação tecnológica. No calor de uma guerra comercial entre EUA e China, foi significativa a posição de equidistância adotada pelo governo brasileiro em questões como a do 5G.

Mas numa semana que parecia promissora para o governo, pelo menos dois eventos tumultuaram a política externa brasileira. O primeiro foi a invasão da embaixada venezuelana em Brasília, na manhã em que se iniciavam os trabalhos da Cúpula dos BRICS. Aproximadamente 20 venezuelanos, apoiadores do autoproclamado presidente Juan Guaidó, entraram nas dependências da embaixada e tentaram expulsar o corpo diplomático leal ao governo de Nicolás Maduro.

O deputado Eduardo Bolsonaro chegou a manifestar, nas redes sociais, seu apoio aos invasores, enquanto parlamentares de oposição foram à embaixada apoiar os servidores pró-Maduro. Diante da alegação de que o governo brasileiro, que reconhece Guaidó, havia tomado conhecimento prévio da tentativa de tomada da embaixada, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) apressou-se em condenar a invasão e negar qualquer envolvimento do Planalto no ocorrido.

Mais que reflexo de polarizações internas sobre a situação da Venezuela, o episódio tensionou a própria posição dos BRICS sobre a crise do país caribenho. China e Rússia são grandes compradores do petróleo venezuelano e fornecedores de investimentos, armamentos e tecnologia a Maduro. Ambos já criticaram abertamente tentativas de interferência norte-americana no país, às quais o governo Bolsonaro referendou, obedientemente, nos últimos meses.

Evento ainda mais dramático foi o desenrolar de uma intervenção militar na Bolívia. O presidente deposto, Evo Morales, já vinha sendo acusado de investidas autoritárias desde que ignorou o plebiscito de 2016, que lhe negou um quarto mandato, e concorreu novamente à presidência este ano.

Diante de acusações de fraude eleitoral, chanceladas pela Organização dos Estados Americanos, e em meio a crescentes manifestações de rua, a polícia e o Exército boliviano forçaram a renúncia de Morales e prometeu convocar novas eleições. Enquanto o ex-presidente rumava para o exílio no México, a senadora conservadora Jeanine Añez assumiu temporariamente o comando do país e autorizou maior repressão dos protestos, que já somam mais de uma dezena de mortes.

Tanto Añez quanto o líder oposicionista Luis Fernando Camacho, articulador da saída de Morales, advogam pautas abertamente anti-indígenas e fundamentalistas cristãs. Além das pautas comuns, vale lembrar que ambos são apoiados pelo governo Bolsonaro. Camacho é acusado de manter contatos frequentes com autoridades brasileiras, inclusive em sua articulação política. Añez, por sua vez, foi prontamente reconhecida pelo governo brasileiro.

Da perspectiva regional, uma Bolívia conservadora fortalece a posição do Brasil no combate a Maduro e na eventual disputa com o governo peronista de Alberto Fernández. Mais que uma questão ideológica ou religiosa, contudo, a crise boliviana pode significar um realinhamento de forças da disputa geoeconômica entre China e Estados Unidos, sobretudo na provisão de recursos estratégicos, como o lítio.

A despeito das turbulências, o balanço da semana é positivo para Jair Bolsonaro, ao menos da perspectiva internacional. As mudanças regionais podem reforçar o papel do Brasil como liderança da virada conservadora no continente, apoiado pelos interesses políticos e econômicos norte-americanos.

A Cúpula dos BRICS, por sua vez, ocorreu sem grandes sobressaltos. A declaração final do evento, marcada pela ausência de menções à Venezuela ou à Bolívia, revela que as potências emergentes de outrora estão menos dispostas a elucubrações ideológicas e mais interessadas em fazer negócios.


Guilherme Stolle Paixão e Casarões

Cientista político e professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo/FGV

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